---Sobre meu feminismo e mim---


Há cinco anos sofri um acidente que cortou minha perna esquerda três vezes e já estou a caminho da próxima cirurgia, agora da retirada da platina e dos parafusos que precisavam manter minha perna enquanto meu femur não tinha condições sustentar.
Durante todo esse tempo, mesmo sem muitas condições, continuei ativa. Militante, ativista feminista. Quando não havia condições alguma de andar, usava a internet e seus meios para publicar arte gráfica ou escrita que dissessem um pouco sobre o feminismo por mim, por nós e pelas outras. Ousei por várias vezes seguir as caminhadas que a rua chamava: Marcha das Vadias; Marchas oito do Março; Caminhadas pela Democracia; Marcha das Margaridas; Marcha das Mulheres Negras, entre muitas outras. Os percursos dessas caminhadas nem sempre eram tranqüilos para mim, sentia fortes dores, mas insistia em seguir, pois acreditava cegamente que aquele momento me fazia feminista.
Passado alguns anos, mais especificamente no meio do ano de 2014, me senti extremamente vulnerável, não conseguia correr, usava bengala para andar e meu diagnóstico era de uma pessoa que perdeu trinta por cento da mobilidade na perna esquerda. Sem muitos comentários a cerca do ocorrido equivoco médico, pois, apenas o resultado disso é o que importa agora; mantinha minha postura forte e ativista, pois para mim, isso era feminismo. Compreendia todas as formas de artivismo, mas criticava o ativismo de sofá, pois não acreditava transformar idéias para construir ideais; mesmo sendo esse modelo que praticava quando minhas pernas literalmente não tinham forças para caminhada.
Portanto, seguia eu feminista, entre dores e amores, a dor que insistia ficar e o amor pelo ativismo que nunca se apagou. Feminismo é uma das palavras mais lindas que conheci, contudo, o feminismo trouxe também outras palavras que conquistaram grandes proporções em minha “postura” MULHER. Alterei um pouco o curso do feminismo em mim, aprendi sobre RESILIÊNCIA, e pra completar aprendi sobre RESIGNIFICAR. Poxa!!! Como essas palavras foram válidas em minha vida.
Iniciei resignificando tudo em tudo, inclusive, meu feminismo. Então o que era o feminismo para mim? Essa e outras eram as questões que pairavam sobre meus intensos pensamentos. Precisei exercitar tanto meu modo singular de resignificar que optei pela distância, provavelmente temporária, dos vários grupos feministas que atuava, tanto em meu estado quanto fora. Olhando de fora, compreendi: compreendi que o feminismo não é necessariamente a luta na rua, mas também a luta que travo todos os dias ao sair do portão da minha casa para fora; compreendi que o meu feminismo era muito mais baseado na dor de uma mulher que sofre as marcas da agressão física, psicológica moral, patrimonial e sexual; compreendi que empoderava mulheres todos os dias com as “meras meias dúzia de palavras aleatórias” que liberava; compreendi que feminismo é colaborar para o empoderamento da minha mana; compreendi que ser feminista não é atuar na mídia; compreendi que não preciso de palco, palanque ou algum espaço de poder para ser feminista; compreendi que existem centenas/milhares de mulheres que precisam somente ouvir algo sobre a força que É para marcar seu espaço com determinação (isso eu fazia de sobra); compreendi que feminismo é amar e acreditar no amor para fazer por e pelo amor às mulheres; compreendi que não preciso de curso, SOU FEMINISTA SIM, independente de cursos, graduação, leitura e afins. O que constrói meu feminismo é o cotidiano de resistência que com muita ousadia e em destemida determinação carrego.
Não sou feminista porque me disseram ser. Sou feminista de corpo e mente! Sou feminista sim! Feminista da rua, de casa, da lua, do sol e dos mais lindos sorrisos que recebo ao encontrar alguém que admira minha louca forma de ser feminista. Isso me faz feminista! isso grita em mim e diz: Mulher se liga! Essa violência que passou acontece todos os dias com milhares de mulheres, então faça! Fale, escreva, diga... Tudo é válido quando se é feminista por amor ou infelizmente por carregar uma dor. Tudo é valido!
Gostei muito de algo que ouvi de uma integrante das Mães de Maio (movimento que transformou mães em ativistas pelo fim da violência em maio de 2006, São Paulo), no Fórum Mundial de Direitos Humanos em 2013. Débora Silva, uma das Mães de Maio disse: “transformo meu luto em luta”.
Meu feminismo se resignifica a cada luta, a cada dor, a cada violência, a cada descaso, a cada negligência, a cada morte, a cada estupro, a cada lesbofobia, a cada sectarismo; a cada empoderamento, a cada resistência, a cada reconhecimento do meu eu, nela, na minha mana também.
Não me reconheço nas mágoas, tropeços ou equívocos ocorridos, percebo e avalio tudo, todavia, resignifico todos os dias quando me reconheço em minha mana assim, do jeitinho que é! com todas as formas, todos os jeitos, todas as lutas e todos os direitos.
Por mim, por nós e pelas outras, esse é meu FEMINISMO:

Ei, olhe aqui!
Olhe..
Olhe... 
Viu? 
O que viu? 
Aposto que se viu então me viu. 
Eu, você, ela, nós. 
Me vejo em você, 
Te vejo em mim. 
Mulher,
mulheres...
Milhares de mulheres. 
Muitas mulheres que se olham e se reconhecem. 
Bom é ser mulher
Melhor ainda olhar e me ver em você. 
Mulher... 
Mulher...
Mulher!

-Ariana Tozzatti-



A imagem pode conter: uma ou mais pessoas, pessoas em pé, árvore, sapatos e atividades ao ar livre

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