Pari alguém que sabe decidir
A mim, empunharam a culpa
A mim, disseram:
CULPADA!
A CULPA É SUA
CULPADA!
Que culpa carrego?
A culpa por proteger de você?
A culpa por não permitir tua voz desafinar meus ouvidos?
A culpa por não permitir teu sangrento olhar?
A culpa por me afastar para somente assim me enxergar?
Você está cega
Pessoa cega que cega.
Carrega fúria no olhar
Sabe do perigo disso?
Olho-olhar é mágico
Uma das portas para evolução.
O que vejo em sintonia com que ouço constrói belos sons
E muitas místicas visões.
Mas não! A sua é cruel.
O ideal é à distância
Para que tudo esteja longe
E eu possa caminhar em bonde
E assim construir minha vida distante.
Distante disso
Do seu preconceito
Da sua vergonha
Do seu medo
Não é apenas isso?
Ainda jura não ser!
É preconceito sim,
Vergonha de mim,
Medo do que eu possa ser,
Precisa lembrar essa pessoa
Que fez tudo acontecer com você.
Não mudei!
Apenas assumi de vez
Assumi que desejo mulher
E para isso minha filha precisou nascer
Ela me encoraja
Amo lutar ao lado dela!
Por ela enfrento o mundo,
Com ela enfrentamos o mundo
Ela me ensinou não temer
Juntas, vamos desenvolver
Criamos técnicas
Todos os dias vamos crescer!
Minha filha sapatão
Ela sim constrói meu não
O não da normatividade
Independente da idade
Só desejo dias melhores
Para que tudo suporte
Ainda que digam ser minha influência
Em poesia escrevo:
Nela está minha crença!
Já compartilhamos alguns problemas
Neguei até que entendi
Que somente ela precisa decidir.
Força terá que ter
Para levantar e às vezes cair.
Assim, sorri!
Pois vi que és forte
Criança esperta, sensível
Nunca deixou de sorrir.
Fiz o possível
Agora aqui estou,
Escrevendo tudo,
Pois acho que venci!
Pari alguém que sabe decidir.
Ainda passaremos lutas,
Porém, juntas, vamos resistir!
---Ariana Tozzatti---
Fotografia de Estela Cristina.

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